Un Simple Accident : a arte como arma, a poesia como resistência

Jafar Panahi transforma a repressão em obra-prima, coroada em Cannes.

Por Maria do Carmo Alvarenga

12 de outubro de 2025.

Era um belo domingo ensolarado em Montpellier, dia em que iniciei minhas sonhadas sessões de cinema, durante minha temporada na França para o mestrado em Cinema (sendo redundante mesmo). Comprei o ingresso para Un Simple Accident (2025) no Cine Diagonal, um cinema de rua independente. Foi uma experiência pra lá de agradável e introspectiva.

Un Simple Accident, de Jafar Panahi — premiado com a Palma de Ouro em 2025 —, é um filme perturbador que levanta reflexões contundentes sobre justiça e vingança. Ele denuncia as condições dos presos políticos no Irã e nos toca profundamente, no que tange ao nosso senso de humanidade. Na tela, acompanhamos a história de um homem que, por acaso, cruza com um rapaz chamado Vahid. Este, ao ouvir o ruído da prótese da perna do desconhecido, o confunde com seu antigo torturador na prisão. O pai de família é sequestrado e, embora negue veementemente ser o tal algoz, acaba trancado na carroceria de uma caminhonete. Vahid, cego pela sede de vingança, não tem certeza se aquele homem é mesmo quem procura. Ele sai, então, em busca de outras vítimas para confirmar se trata-se mesmo daquele a quem chamam de “ la guibolle” (na tradução livre, “o aleijado”)

Toda essa narrativa se desenrola pelas ruas de Teerã, em um jogo dramático, poético e irônico, mesclando cenas ora cômicas, ora angustiantes.

A singularidade de uma resistência

O cineasta Jafar Panahi filmou Un Simple Accident na clandestinidade, em coprodução com a francesa Films Pelléas. Sua trajetória é marcada pelo ativismo e pela repressão. Entre 2010 e 2023, foi preso, acusado de propaganda contra o regime iraniano, proibido de deixar o país e de realizar filmes. No entanto, a opressão não o silenciou. Obstinado, continuou a criar obras emblemáticas na clandestinidade. Merece, com certeza, um Prêmio Nobel da Paz por sua história e resistência. Seus filmes questionam a liberdade (melhor dizendo, a falta dela), as contradições e fragilidades da sociedade iraniana, como em Isto Não É um Filme (This Is Not a Film, 2011) ou Pardé (Closed Curtain, 2013).

O produtor Philippe Martin, em entrevista ao Centre National du Cinéma et de l’Image Animée (CNC)*, falou sobre o processo de produção do longa-metragem e os desafios impostos pelas condições de Panahi. Ele conta que “tudo foi feito em segredo, e que ele mesmo nem sempre sabia os detalhes das filmagens”. No final das gravações, uma cena teve que ser recriada com efeitos especiais, pois a polícia havia confiscado as câmeras em busca de provas. Felizmente, para nós, amantes do cinema, a repressão falhou desta vez.

As honras da simplicidade

É preciso destacar o talento necessário para realizar um filme na clandestinidade. Quando imaginamos uma produção cinematográfica, geralmente pensamos em um mundo de parafernálias, holofotes e equipes numerosas, enfim, “luz, câmera, ação” . No entanto, Jafar Panahi fez tudo discretamente. Suas escolhas são modestas: o cenário principal é uma caminhonete, um terreno baldio, e as cenas em espaços públicos são raras e limitadas.

As personagens são marcantes, e os atores lhes conferem uma profundidade muito humana e sensível, graças a um roteiro e uma direção de grande refinamento. O sucesso de Un Simple Accident pode render outras premiações: o filme, aliás, é cotado para representar a França no Oscar de Melhor Filme Internacional. Uma promessa que pode muito bem se concretizar.

* « Un simple accident » vu par son coproducteur français .

httpsa://www.cnc.fr/cinema/actualites/un-simple-accident–vu-par-son-coproducteur-francais_2468703


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