Mais Pesado é o Céu

Direção: Petrus Cariry
Roteiro: Petrus Cariry, Firmino Holanda
Elenco: Matheus Nachtergaele, Ana Luiza Rios, Silvia Buarque

em 16/08/2024, editado em 09/09/2024
Por Maria do Carmo Alvarenga

“O quê que a gente fez da gente?” Pergunta que fica ecoando em nossa cabeça ao final da seção de Mais Pesado é o Céu (2023), dirigido por Petrus Cariry. O longa, gravado no sertão cearense, apresenta uma história de luta por sobrevivência, realidade ainda forte no nordeste brasileiro. Nesse drama, Antônio (Matheus Nachtergaele) pega carona pelas estradas do Ceará, vindo de São Paulo e em busca de um trabalho em Fortaleza. Numa represa (açude Castanhão), ele se depara com Teresa (Ana Luiza Rios), que também está na estrada, sonhando com uma vida melhor. A moça encontra uma criança abandonada em um barco e, estranhamente, assume o papel de mãe. O cenário poético do Castanhão, de águas tão azuis que se misturam ao céu, sela o encontro dessas três vidas que formam uma espécie de família por conveniência.

A partir desse encontro vamos acompanhando um enredo repleto de simbolismos, com requintes de realismo mesclado com existencialismo e poesia, ao melhor estilo Guimarães Rosa, Machado de Assis e Clarice Lispector. Os dois, com a criança, se instalam em uma cabana abandonada. Enquanto, Antônio tem uma postura passiva e se encarrega de cuidar da casa e do « Menino », Teresa batalha por um emprego, mas diante das negativas, ela vai para a beira da estrada fazer programas sexuais e, assim, consegue o mínimo, para comprar leite para alimentar o bebê.

O retrato cruel da misoginia e dos abusos sofridos por Teresa são difíceis de assistir. Diante de cenas tão reais, sentimos asco junto com ela e a revolta nos consome ao pensar em quantas meninas e mulheres não têm outra saída para saciar a própria fome e a de sua família. Ao mesmo tempo, a prepotência machista é o se sobressai em muitos personagens que só se preocupam com o próprio prazer, sem se incomodarem com o grande mal que fazem a uma mulher.

Num contraste com situações tão pesadas, o cenário parece amenizar a história com beleza, poesia e simbologia. A estrada está tão presente, que mais parece um personagem. Ela é testemunha da violência sexual que Teresa sofre, ao mesmo tempo, é o símbolo do futuro, do sonho de ir além de Antônio e Teresa; representa algo que não se sabe se um dia chegará. O céu azul e o sol tão forte, característico do sertão, tornam mais pesado ainda o caminhar dos retirantes. Esses elementos juntam-se à represa, uma imensidão de água que inundou a cidade natal de ambos, que mesmo com toda a beleza, mais parece representar a morte à vida.

Os poucos diálogos, marcados por silêncios profundos, parecem dar espaço para as imagens ocuparem o lugar da fala. Algumas poucas reflexões na linguagem simples dos personagens são igualmente muito fortes, como quando Teresa diz “eu só queria mudar de vida”, ou quando Antonio se refere à morte comparando-a ao silêncio da cidade inundada (a imagem da represa aparece).

A criança, naturalmente, representa o futuro. No entanto, em Mais Pesado é o Céu, ela parece ser mais um dos personagens que também lutam por sobrevivência. Sua arma: o choro que comove uma mulher que não tem nada para oferecer à essa vida, mas sacrifica o seu corpo para sua subsistência. Nesse aspecto dúbio, o menino que não tinha nome é batizado com nome de anjo: Miguel. Fato que é mencionado por Antônio como um símbolo de esperança: “nome de arcanjo”.

Nessa atmosfera de dor, esperança e desesperança, somos envolvidos por toda a trama e nos pegamos torcendo por um futuro melhor para esses três. A genialidade de Cariry nos toma de surpresa num desfecho surpreendente. Eis a grandeza de uma obra que nos prende do início ao fim. Contudo, ela nos traz consequências: fica uma pulguinha nos cutucando, remoendo, revivendo, nos colocando num lugar desconfortável, querendo, quem sabe, mudar o curso da vida real.


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